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ANAIS DO XIV ENCONTRO NACIONAL DA ABRAPSO - RESUMO
ISSN 1981-4321

Tema: Mesa Redonda - Histórias, Teorias e Metodologias

DE SILVIA LANE AO "COMPROMISSO SOCIAL"

Autores:
A professora Silvia Lane foi uma importante influência no desenvolvimento da Psicologia Social. Sua produção teórica permitiu a construção de novas perspectivas no campo. Suas idéias sobre a prática permitiram a construção da Psicologia Comunitária. Seu empenho na América Latina criou intercâmbios e trocas, fortalecendo o diálogo no campo da Psicologia entre profissionais da América Latina. Silvia Lane foi guiada pelo princípio de que o conhecimento produzido deveria sempre ser útil para a transformação da realidade na direção da criação de condições dignas de vida para todos. O conhecimento e a profissão deveriam estar a serviço da transformação e com estas idéias, Silvia contribuía para uma revolução na Psicologia. O rompimento com a tradição elitista da Psicologia, a preocupação com a construção de um novo projeto para a ciência e para a profissão, a adesão a uma nova concepção de homem para a Psicologia, o esforço para aproximar a América Latina, enfim, Silvia apontava para as exigências e condições para um novo projeto para a Psicologia. E desta forma, pode-se apontar Silvia Lane como uma das influências do que hoje chamamos de Psicologia com Compromisso Social. Trabalho coletivo, consciência crítica e atenção permanente e comprometida às urgências e necessidades da população se puseram como pedras fundamentais da transformação da Psicologia e, não há dúvida, da importância de Silvia neste caminhar. Silvia foi professora na PUCSP e seu trabalho naquela Universidade merece ser resgatado, pois é a partir dali que se expande sua influência, suas idéias e seus convites para que um coletivo dos psicólogos se engajasse nas novas tarefas. No Brasil, muitos aceitaram o convite e encontramos as marcas espalhadas por todo lugar onde há psicólogos. Importante registrar que este coletivo se tornou diversificado e rico, porque Silvia entendia também que a partir de algumas idéias e princípios é possível e desejável esperar do outro sua produção original. Nesta mesa vamos fazer uma homenagem a esta que foi mestra de todos nós e esta homenagem será feita retomando e refletindo sobre o caminho percorrido por Silvia na Psicologia Social brasileira e da América Latina, a corrente da Psicologia Sócio Histórica que se instala nos espaços onde Silvia estava na PUCSP e se desenvolve na Faculdade de Psicologia daquela Universidade e os alicerces do novo projeto de Compromisso Social da Psicologia. O "compromisso social" está no título do trabalho entre aspas, porque sabemos que Silvia manteve sempre um compromisso com a sociedade onde trabalhou, mas aqui ele faz referência ao reconhecimento mais coletivo que hoje temos na categoria dos psicólogos de que, ao atuarmos na profissão e na produção do saber, é preciso fazer isto voltado às demandas e necessidades da,maioria da sociedade brasileira, superando formas tradicionais e elitistas da ciência e da profissão. Pretendemos fazer desta mesa um momento de expressão de nosso reconhecimento, de nossa gratidão e de nosso orgulho por termos estado sempre tão próximos à professora Silvia Lane e também, um momento de apresentação de nossa leitura e aprendizado decorrentes deste contato.
 
 

Resumo das Falas

ANA MERCÊS BAHIA BOCK(PUCSP)

SILVIA LANE E A PSICOLOGIA SOCIAL NO BRASIL

Não se pode contar a história da Psicologia Social no Brasil sem que se faça referência à profa. Silvia Lane. É possível dizer que com Silvia Lane a psicologia social no Brasil se transformou numa psicologia social brasileira. Silvia teve como preocupação central produzir um conhecimento, em Psicologia Social, que falasse da gfente brasileira, suas condições de vida e trabalho. Dialogou com a Psicologia Social da Europa, da URSS, dos EUA, onde estudou, mas privilegiou em seus diálogos a Psicologia Social de países lationo-americanos. Assim Mario Goldman, Martin Baró, Maritza Monteiro, Maria Aparecida Blanche, Fernando Gonzalez Rey se tornaram interlocutores especiais. Silvia Lane aliou a busca de novos referenciais teórico-conceituais a organização da Psicologia na América Latina. Construiu e dirigiu a Associação Brasileira de Psicologia Social- ABRAPSO. Este espaço possibilitou o desenvolvimento de um pensamento em Psicologia que introduz as condições adequadas para se desenvolver o projeto do compromisso social. Certamente, Silvia não foi a única. Contou com muitos parceiros e outros estavam, no mesmo momento, trilhando o mesmo caminho. Mas sua capacidade de liderança, uma liderança que sempre privilegiou o coletivo, foi um diferencial. Sua capacidade de organização e sua produção influenciaram muitos aqueles que, hoje, mantém a chama de uma psicologia social brasileira comprometida com os interesses da maioria da população. Silvia ale disto, em seu trabalho como professora da PUCSP, aliou o esforço da produção teórico-conceitual e a organização da Psicologia Social ao esforço de uma prática coerente e comprometida com a transformação das condições de vida. Lançou os alicerces da Psicologia Social comunitária. Experiências na PUCSP com os estágios de alunos, acompanhada do prof. Alberto Abib e profa. Odette Pinheiro, permitiram experimentar uma nova prática; uma prática que incorporava a perspectiva do trabalho clínico, mas que ia além e trazia para a cena do trabalho profissional as condições de vida, as formas de organização social para superar dificuldades e o debate dos problemas vividos no cotidiano pelas comunidades. O que representou o momento histórico da construção dessa psicologia social brasileira? Como foi possível a Silvia Lane capitanear esse movimento? Como foi possível construir uma vertente crítica num momento histórico difícil, representado pelo cerceamento dos direitos civis e do tolhimento da liberdade de expressão? Afinal esta história se dá em um cenário de ditadura militar. Estávamos nos anos de chumbo, os anos 70. A história dessa professora e pesquisadora que atuou para além das nossas fronteiras e foi reconhecida amplamente para além de nossas fronteiras (uma das poucas pesquisadoras brasileiras no campo da psicologia social citada em publicações fora do país) se confunde com a história da resistência à ditadura militar e a organização de um campo crítico na universidade brasileira, um dos raros espaços com um mínimo de oxigenação política naquele período. Uma combinação de militância e capacidade analítica resultou numa proposta de psicologia social e em fundamentos metodológicos e teóricos que vale a pena analisar neste período de redemocratização do país. O materialismo histórico será trazido como ferramenta de análise; a vida vivida como critério básico e o empenho científico da pesquisa permanente vão se associar para permitir o produto. Além disto, nas Universidades, em especial na PUCSP, vamos encontrar uma força crítica grande. A PUCSP recebeu professores cassados pelo AI 5, como Florestan Fernandes, Maria Nilde Mascellani, Otávio Ianni, Paulo Freire e outros que farão da PUCSP um espaço de resistência e produção crítica. Os alunos que acompanhavam este momento vão incentivar e reforçar esforços críticos. Os primeiros Centro Acadêmicos livres vão se constituir na PUCSP e o primeiro deles nasce exatamente na Faculdade de Psicologia dirigida à época pela profa. Silvia Lane. Importante lembrar que a PUCSP em 68/ 69 fez a experiência de reformulação de sues cursos com a participação ampla de professores e alunos. No início dos anos 70, a profa. Silvia foi designada diretora do recém criado curso de Psicologia (que unia o Sedes Sapientiae com a Faculdade São Bento) e lá ela fez uma experiência democrática de formulação de um curso. Neste contexto, a profa. Silvia liderou um movimento crítico no campo da Psicologia, que fazia avançar a Psicologia Social no Brasil para uma Psicologia comprometida com a realidade brasileira; fazia avançar a formação em Psicologia; fazia avançar a idéia de uma psicologia latino-americana e fazia avançar a pesquisa como fundamento das construções teórico-conceituais e fazia avançar a organização dos psicólogos. Silvia permaneceu como referência durante os anos 80, 90 e inicio do século XXI. Faleceu em abril de 2006 ainda ativa em seu trabalho. Alguns alunos da profa. Silvia aprenderam com ela a necessidade de uma ciência útil na construção de condições de vida dignas para a maioria da população brasileira. Alguns deles aqui estão, na defesa de um projeto de profissão que rompa com a tradição elitista da Psicologia, que coloque a Psicologia brasileira associada às psicologias de outros países da América Latina, que recoloquem nossa profissão no cenário brasileiro associada às políticas públicas, aos direitos sociais e humanos, que privilegiem a organização como forma de avanço democrático e sejam capazes do diálogo permanente com todas as psicologias. Silvia Lane nos permitiu chegar à Psicologia Sócio Histórica; chegou a este lugar a partir do diálogo com tendências francesas (Poitou, Pêcheux, Le Ny e Moscovici) com tendências soviéticas (Leontiev, Vigotski e Luria); dialogou e superou sua tradição Skinneriana, sabendo retirar do diálogo com Skinner questões importantes sobre o comportamento verbal, enriquecendo seu aproveitamento da questão da linguagem pontuada por Vigotski. Valorizou as produções latino-americanas na Venezuela, na Guatemala, em Cuba, na Argentina. Incorporou no programa de Pós Graduação em Psicologia Social na PUCSP professores e pesquisadores de diferentes vertentes e formações teóricas promovendo um espaço de debate dos mais ricos. Escreveu e incentivou seus alunos a pesquisarem e a publicarem; incentivou a ousadia na produção científica. Orientou seus alunos à tomarem o compromisso com as necessidades sociais como critério básico de suas produções. Por isto esta mesa afirma De Silvia Lane ao Compromisso Social, porque este foi o percurso que fizemos, incentivados por uma competência técnica, por uma seriedade ética e por um compromisso político mantido sempre por Silvia.

MARIA DA GRAÇA MARCHINA GONÇALVES (PUCSP)

SÍLVIA LANE - TEORIA E PRÁTICA VIVIDAS COMO MILITÂNCIA

Esta apresentação trará alguns dos principais aspectos da obra de Sílvia Lane, de forma a evidenciar os elementos de sua construção teórica que mostram a possibilidade de se colocar o conhecimento da Psicologia a serviço da transformação social. Sílvia Lane queria uma psicologia social comprometida com a transformação da sociedade. Foi incansável na produção teórica e de pesquisa com esse norte: conhecimento científico como práxis, unidade entre saber e fazer. Tinha como preocupação básica a construção de uma psicologia social voltada para a realidade brasileira e latino-americana, com vistas a contribuir para a superação das desigualdades e das situações de opressão. Entendia que o conhecimento da psicologia deveria levar à compreensão dos mecanismos que provocam a alienação e contribuir para ampliar a consciência dos homens. Sua teoria sobre o psiquismo tem essa direção. A trajetória de sua produção teórica tem vários marcos e revela: abertura para diferentes teorias que pudessem contribuir para uma visão crítica da realidade; o rigor científico de quem sabe que a ciência rigorosa é aquela que explicita seu compromisso com a sociedade; coerência com a busca constante da articulação entre teoria e prática. Esses pressupostos fundamentais estão presentes em sua obra como será indicado por meio da apresentação de alguns de seus principais aspectos. Para isso, será feita uma leitura com um recorte, dentre os vários possíveis. O recorte escolhido identifica sempre, em vários momentos de sua produção, duas questões: a relação subjetividade e objetividade; e a formação e o papel dos valores. De certa forma, Sílvia Lane traduzia nessas questões a preocupação em investigar e compreender como o indivíduo está implicado com a sua sociedade, como se coloca nela, o que permite ou impede que ele compreenda as determinações sociais e como pode agir sobre elas. Uma parte de sua discussão caminhou pela crítica à psicologia social predominante em nosso meio. Era a psicologia social norte-americana, de base experimental e positivista, que falava de mecanismos psicológicos universais e abstratos, desconsiderando o conteúdo histórico e social presente na constituição do homem. A psicologia social cognitivista colocava como objeto as relações interpessoais e a influência de fatores sociais no indivíduo, mas estabelecendo uma dicotomia entre indivíduo e sociedade e dentro de uma perspectiva naturalizante. Tais formulações estavam baseadas em um método experimental, que buscava relações causais entre variáveis e estabelecia a necessidade de verificação empírica de princípios teóricos. Baseado no positivismo, o método pregava a neutralidade do conhecimento científico e a distinção entre o conhecimento e a ação, ou seja, entendia que o conhecimento deve ser objetivo e desvinculado de qualquer intenção em relação a seu uso. Cada um desses pontos foi questionado e discutido por Sílvia. Seu conhecimento sobre Lewin e Skinner já a levara a questionar a dicotomia entre subjetividade e objetividade. Entendia que ambos os autores traziam contribuições importantes para a compreensão do indivíduo, mas as perspectivas que desvinculavam o indivíduo de seu contexto não eram suficientes para se entender o homem social. Considerava que, no caso da psicologia social cognitivista, isso era mais grave, pois se produzia uma psicologia que não atentava, realmente, para as questões sociais, já que elas eram apenas "pano de fundo" para os acontecimentos do mundo psíquico. Também não era aceitável, para Sílvia, que se pensasse o conhecimento como desvinculado da ação. Para ela, o conhecimento só teria sentido se fosse produzido como resposta às questões da realidade, revelando o compromisso do pesquisador com seu tempo e suas questões. Sílvia Lane dizia, então, que era necessária uma nova concepção de homem na psicologia: um homem social e histórico. E, para compreender esse homem e como as determinações históricas estão em relação com ele, seria necessário um outro método. O materialismo histórico e dialético será o método que ela vai adotar e desenvolver na psicologia social. A partir desse método, produz, então, uma nova psicologia social, cujo objeto, em vez de "relações interpessoais e influências sociais" seria o homem como ser histórico, a dialética entre indivíduo e sociedade, o movimento de transformação da realidade. O método materialista histórico e dialético tem recursos para se compreender o homem dentro da totalidade histórica, a partir das categorias da dialética (totalidade, contradição, empírico-abstrato-concreto, mediação). Além disso, esse método considera que sujeito e objeto estão em relação dialética, portanto não há neutralidade no conhecimento, há sempre uma intenção do sujeito sobre o objeto. Essa intenção é histórica e deve se considerada. Em outras palavras, o materialismo histórico e dialético permite trabalhar com a historicidade dos fenômenos e, por isso, contrapõe-se à sua naturalização. Boa parte da obra de Sílvia Lane será para desenvolver uma compreensão do psiquismo fundamentada nesses pressupostos. Na psicologia social, então, o objetivo seria compreender o indivíduo em relação dialética com a sociedade, a constituição histórica e social do indivíduo e os elementos que explicam os processos de consciência e alienação e as possibilidades de ação do indivíduo frente às determinações sociais. Essa produção não se desvia, em nenhum momento, de seu propósito maior: desenvolver uma psicologia que contribua com a transformação da sociedade. Ela será protagonista dessa posição em vários eventos: em debates com Aroldo Rodrigues, o representante no Brasil da psicologia social cognitivista; na articulação da psicologia social brasileira com a latino-americana; na criação da ABRAPSO; na criação do Pós em Psicologia Social da PUC; no desenvolvimento de uma psicologia social comunitária. São eventos que representam a articulação entre teoria e prática vividas como militância. O enfrentamento da necessidade de trabalhar com a consciência das pessoas, a necessidade de uma ação profissional que fosse possível e útil em um contexto de opressão política, levaram ao desenvolvimento da psicologia social comunitária. Esse tornou-se um espaço claro de articulação teoria e prática. Um novo conhecimento era necessário para lidar com a realidade encontrada nesse campo. A psicologia tradicional, naturalizante, com práticas curativas e individualistas não se aplicava aos movimentos sociais, ao trabalho em bairros, favelas, na educação popular. Era necessário entender o homem desse contexto e inventar novas práticas. A relação com outros países da América do Sul permitiu comparar a produção brasileira com a de outros países e avançar na discussão de vários temas. Sílvia Lane desenvolveu a concepção de uma subjetividade em processo dialético, numa dialética subjetividade-objetividade. Teve acesso à obra dos soviéticos Luria, Leontiev e Vigotski e, a partir deles, desenvolveu o estudo das categorias do psiquismo: atividade, consciência e identidade. Articulou seus estudos sobre linguagem e processo grupal à compreensão das categorias como processos constituídos por mediações. Trabalhou também, nessa perspectiva, com a teoria das representações sociais de Moscovici. No desenvolvimento dessas concepções aparece a segunda questão considerada no recorte feito: a constituição e o papel dos valores no processo subjetivo-objetivo ou na relação indivíduo-sociedade. Seus estudos iniciais sobre a dimensão valorativa presente nos significados das palavras ampliaram-se com as noções de significado social e sentido pessoal, no estudo da linguagem como mediação no processo atividade-consciência; e com os estudos sobre emoções e a postulação da categoria afetividade. O desenvolvimento dos estudos sobre as categorias do psiquismo possibilitou avançar na compreensão da emoção e da criatividade. São os desafios colocados desde sempre e de maneira coerente: é necessário compreender o que permite ao homem se implicar, se reconhecer como sujeito, compreender as determinações a que está sujeito e as formas de agir sobre elas. É necessário compreender o que impede e o que permite o homem de agir para transformar a realidade de forma libertadora e emancipadora. Esses aspectos da obra de Sílvia Lane serão apresentados a fim de que se possa avaliar sua contribuição téorico-prática na proposição de uma psicologia comprometida com a construção de uma sociedade justa e igualitária.

MARCOS RIBEIRO FERREIRA (UFSC)

POR UMA PSICOLOGIA ATENTA AO CONTEXTO SOCIAL

As iniciativas de Silvia Lane e de um conjunto de colegas que se reuniram na tentativa de estabelecer um referencial crítico para a Psicologia brasileira merecem ter seu caráter seminal esclarecido, avaliado e festejado. Parece mais fácil atentar para as respostas que ela conseguiu construir, mas será importante resgatar as inquietações que a levaram a procurar essas respostas. Interessa, neste texto, resgatar três elementos que podem ser considerados fundantes da produção de Silvia Lane no momento da criação de um conjunto de iniciativas que nos abriram os olhos para perceber que uma outra psicologia era possível. Uma delas se refere ao discurso sobre a construção de uma consciência crítica da realidade. Seus corolários, entender o psiquismo no contexto social onde se formou, e ainda fazer isso de modo crítico em relação a esse contexto, são ainda verdadeiros desafios (formulados por ela Padre Abib em sala de aula) que precisam ainda se alvo de nossos esforços. Outra inquietação foi apresentada em debate realizado por Silvia em Ribeirão no ano de 1976, quando ela mais enfatizou a exigência do trabalho coletivo na construção de uma nova Psicologia. A tarefa política de construir essa psicologia não poderia caber a sujeitos isolados. Ela apontava a importância de investimento na constituição de coletivos articulados, capazes de identificar desafios e oportunidades no contexto social, e estabelecer linhas de conduta capazes de fazer avançar a produção. O combate ao individualismo teria acontecer já no modo de trabalhar essa construção. Precisaria acontecer a partir do trabalho coletivo. A terceira inquietação que se quer resgatar neste momento refere-se à certeza de que a psicologia, tal como estávamos conhecendo, não estava pronta para o povo brasileiro. Seria preciso produzir uma psicologia adequada ao povo brasileiro. Uma psicologia que estivesse atenta ao contexto social desse povo e capaz de colaborar com o seu desenvolvimento. Claro que foram muitas as repercussões dessas iniciativas. Para ajudar o debate a andar, afirmarei que, por um lado, houve quem se contentasse com ver crescer o número de pessoas que assumiram algumas perspectivas decorrentes das preocupações de Silvia e passaram a se gloriar do que havia sido conseguido. Por outro, houve quem adotasse mais as inquietações do que as respostas formuladas. Houve quem ficasse com sua atenção voltada para contexto social em que vive o povo brasileiro, buscando formas de fazer avançar a inquietação que provocou o surgimento do discurso da consciência crítica da realidade. Esta mesa parte do pressuposto de que, uma das germinações dessas inquietações consiste na presente tematização do compromisso social da psicologia. Um grupo se organizou politicamente no interior da Psicologia, buscou a articulação de um grande conjunto de coletivos, apontou possibilidades de desenvolvimento e procurou sustentação institucional para essa proposição. Se na década de setenta o possível foi constituir iniciativas como as de Silvia Lane, a década de noventa colocou outras exigências, que parecem ter encontrado seu lugar na tematização do compromisso social da Psicologia. Resta saber se seremos capazes de identificar no novo contexto social as brechas por onde poderemos fazer surgir a psicologia de que o povos brasileiro e latino-americanos necessitam. Resta saber se vamos ser capazes de articular esforços e identificar novas possibilidades de desenvolvimento para um saber que ainda tem tantas dívidas históricas a enfrentar. É possível afirmar que tenha sido a exigência de esclarecer o que seria o social na psicologia que tenha gerado no Brasil a possibilidade de desenvolvimentos que diferenciaram de forma tão significativa seus contornos e projetos de pesquisa e de atuação. Essa exigência permitiu que a inserção do grupo de trabalho que Silvia Lane compunha, ganhasse uma nova qualidade. Essa inserção foi diferente daquela mais comum nos grupos então atuantes no Brasil. Não se tratava de aplicar ou proceder a algum desenvolvimento marginal na Psicologia, decorrente da apropriação do pensamento psicológico encontrado pronto em outros países. Era preciso indicar claramente a partir de qual solo eles estavam trabalhando e, já aí, produzir algo novo, uma vez que adequado a este solo específico. A inserção de seu grupo de trabalho era diferente por que eles se comportavam como construtores da Psicologia. A exigência de nomear sua produção pode ter sido importante para que o comportamento desse grupo não fosse reprodutor ou aplicador ou pregador ou repetidor ou defensor de algo que lhes havia sido mandado desde algum lugar supostamente especial onde a Psicologia brotava de forma mais espontânea do que nas terras tupiniquins. A Psicologia era algo que precisava ser construído e essa tarefa cabia a cada uma das pessoas que participavam desse debate. Vale ressaltar um elemento caracterizador desse social que resume o que se apresenta aqui. Tratava-se de situar cada evento, cada pessoa, cada iniciativa em seu contexto social. O social não seria simplesmente um acréscimo ao que a Psicologia já sabia fazer. Tampouco significa uma defenestração do que fora produzido até então. Ele teria que ser uma fonte de renovação dessa Psicologia, sua capacitação para enfrentar os desafios que a sociedade lhe propunha e produzir respostas às questões que realidade lhe impunha. Nessa perspectiva, o psicólogo social não seria somente aquele que trabalharia com problemas ou situações de caráter social ou grupal. Um psicólogo clínico (em atendimento individual, em consultório particular), seria também um psicólogo social. Para isso, bastaria que ele procedesse em seu trabalho ao exercício de contextualização do seu cliente no seu momento social e histórico. Na medida em que as fontes explicativas e os resultados obtidos tivessem um caráter de habilitação de cada pessoa para atuar e transformar (isto é, participar dos processos de transformação de) sua realidade, esse trabalho poderia ser considerado como de psicologia social. A atenção ao contexto do fazer humano foi uma forma de inserir no campo de visão da Psicologia aquilo que nos anos setenta era chamado de realidade brasileira. Ocorria um reconhecimento de que a Psicologia se desenvolveu quase sempre sem atentar para as necessidades, virtudes e problemas vividos pela maioria da população brasileira. O contexto a que se deveria dar atenção era o contexto econômico, histórico e social onde vivam os brasileiros. Neste sentido é que a expressão toda a psicologia é social ganha uma possibilidade de compreensão fértil para o projeto de construção de uma psicologia social efetivamente adequada aos povos brasileiro e latino-americano.É possível afirmar que essa compreensão, do que seja o social na Psicologia, tenha se mantido válida até o fim da vida de Silvia Lane. Seu entusiasmo e disposição para colaboração nas mais diferentes iniciativas se acenderam quando percebeu que um movimento, com essas características, ganhava espaço na Psicologia Brasileira, ao longo da última década, Silvia não poupou esforços para colaborar.

   
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