Página Principal
Topo Topo
Abrapso

ANAIS DO XIV ENCONTRO NACIONAL DA ABRAPSO - RESUMO
ISSN 1981-4321

Tema: Sessões Temáticas - Histórias, teorias e metodologias

NOVOS PARADIGMAS PARA A ABORDAGEM DAS PRÁTICAS RELIGIOSAS PELA PSICOLOGIA SOCIAL

Autor:
RICARDO VIEIRALVES DE CASTRO
A psicologia, em geral, não teve na análise da religião o devido rigor no tratamento de um fenômeno que atravessa a história humana desde seus primórdios. A psicologia destinou à experiência religiosa, o lócus clínico das patologias, da falsificação (ilusão) da verdade e da alienação. A experiência religiosa foi compreendida, pela maior parte das teorias e análises psicológicas, reduzida à sintomatologia própria das neuroses e aos delírios ou alucinações psicóticas. A clínica foi hegemônica na produção deste discurso sobre a experiência religiosa, e a psicologia social omissa na análise deste fenômeno de forte dinâmica psicossocial e de organização do pensamento e da vida social. O fenômeno religioso não foi assim tratado por outras ciências humanas e sociais, especialmente pela antropologia. Sua identificação e análise foram fundamentais para o entendimento da estrutura cultural de um determinado povo. As compreensões de seus ritos e de seus princípios desvelaram aspectos da vida social. Os estudos sobre a prática e a convivência humana na estrutura religiosa identificaram regras de relação e de interações sociais existentes. Os estudos etnográficos de Malinowski e Margareth Mead, do início do século XX, romperam com a noção etnocêntrica e estabeleceram, já naquele tempo, um método de investigação que descrevia e procurava compreender a complexidade expressa no pensamento religioso. Marcel Mauss no seu brilhante ensaio sobre a magia, ao definir o conceito de Mana, estabeleceu um paradigma empírico para sua teoria monista. Assim, a antropologia, desde suas origens, estudou com rigor o fenômeno religioso e apoiou-se nele para o entendimento da Cultura. No Brasil, foram os antropólogos, em especial os do Museu Nacional e os da USP que, com a contribuição de Lèvy-Strauss e Roger Bastide, debruçaram-se sobre as práticas religiosas brasileiras com cuidado e rigor acadêmico. Enquanto isto, com exceção de Nise da Silveira, discípula de Jung, que estudou a religião associada à prática clínica no tratamento de psicoses, a psicologia no Brasil simplesmente desprezou a experiência religiosa como um fenômeno de seu interesse. Entretanto, a partir das contribuições da psicologia social dinâmica, especialmente nos estudos de representações sociais e memória social é possível tratar o fenômeno religioso como um objeto privilegiado para o entendimento da dinâmica psicossocial. A identificação e análise do fenômeno religioso no Brasil possibilitam o entendimento da complexidade da formação cultural do povo brasileiro e da dinâmica das relações humanas na contemporaneidade. Em nosso País, de poucos declarantes sem religião (7,3% segundo o último censo), o que não significa se considerarem ateus (apenas 1,2% se declararam ateus), a experiência e a prática religiosa não podem ser um fenômeno desprezível. E é preciso tratá-lo com a importância que tem na organização e estruturação da sociedade brasileira e das interações psicossociais. O que significa, para a Psicologia Social, "correr atrás do atraso", ou seja, em diálogo profícuo com as ciências sociais, em especial, a antropologia, desenvolver um arcabouço teórico e empírico para a identificação e análise deste fenômeno. É preciso, para aproximarmo-nos do fenômeno religioso, estabelecer alguns pressupostos que orientem uma postura epistemológica na abordagem deste objeto pela Psicologia Social. Em primeiro lugar é preciso abandonar, nos estudos de Psicologia Social, a ancoragem da identificação da experiência religiosa com patologias clínicas. Se isto interessa, é exclusivamente para a prática clínica e suas interações. A Psicologia Social não deve estabelecer seus pressupostos teóricos sobre aqueles princípios clínicos, mas constituir a análise deste objeto sobre outros paradigmas e fenômenos. Também, mesmo que óbvio para alguns, a aproximação do fenômeno religioso deve ter o cuidado do distanciamento crítico e não etnocêntrico. O debate entre ciência e religião é extenso e sou da posição de uma postura agnóstica do conhecimento científico em relação à religião. Ou seja, a existência, ou não, (aqui os ateus estão incluídos) de Deus ou de qualquer outro Ente(s) não é um problema para a ciência ; a "realidade" de Deus encontra-se nos seus efeitos, nas relações que provocam, nas práticas e nos juízos que se disseminam. Assim, o que nos interessa é a dimensão psicossocial do acontecimento religioso no cotidiano das pessoas, dos grupos e dos povos. Nosso "atraso" na abordagem deste problema nos determina o caráter compulsório do diálogo com as ciências sociais e humanas, em especial, a antropologia que estuda há mais de um século o fenômeno religioso e seu acontecimento como uma manifestação cultural. Neste aspecto, há uma vasta literatura internacional e nacional sobre isto. Também creio importante, principalmente, sobre práticas religiosas sem registro ad intra como as religiões de matriz africana no Brasil, relatos de fontes secundárias sobre estas experiências religiosas (arquivos da polícia, jornais, iconografias, textos literários e outros relatos). A teoria das representações sociais, principalmente através dos processos de ancoragem e de objetivação, pode compreender o efeito da religião sobre a coesão e identidade grupal e principalmente na familiarização do cotidiano. Os recentes estudos sobre memória social possibilitam estudar a permanência das lembranças, atravessando os anos e, ao mesmo tempo, as suas mudanças nas exigências do tempo. As práticas religiosas, por sua construção simbólica sobre o eterno e o perene, possibilitam investigar, como um fenômeno privilegiado, o que permanece nas relações humanas, as nostalgias e as lembranças dos ancestrais. A construção épica do discurso religioso permite o entendimento dos processos de convencimento, de coesão, e da eficácia do proselitismo na mudança de comportamentos. É preciso, por fim, redimensionar os conceitos de adesão e de afeto. O conceito de adesão é fundamental para o entendimento do fenômeno religioso em uma abordagem psicossocial, entretanto, suas referências teóricas associam-se à idéia de vontade e, desta forma, a uma ação individual de escolha, sem qualquer interface social. O conceito de adesão social, da forma como pensa Denise Jodelet, pode permitir o entendimento de uma ação fundamental no processo de inserção em um determinado grupamento religioso, e estabelecendo explicações para o ingresso, manutenção ou mudança de sujeitos face ao fenômeno religioso e sua institucionalização. Da mesma maneira, as práticas religiosas são mobilizadoras de afetos, que ganham dimensão psicossocial nos ritos, cultos e outras experiências religiosas. Estes afetos, emoções, também se estruturam em uma ambiência psicossocial e, por esta ambiência, também podem ser entendidos e justificados. Não há nesta abordagem uma postura de negação do intra-psiquíco, ou de uma experiência subjetiva individual, entretanto não é este o objeto de uma psicologia social dinâmica. O que nos interessa observar é o acontecimento onde indivíduo e sociedade interagem e, por muitas vezes, se indiferenciam. O fenômeno religioso é um objeto privilegiado para esta orientação epistemológica, por sua dimensão e impacto na vida social.
 
 

   
Voltar Imprimir
ABRAPSO
Produzido por FW2